Zika e a Mentalidade do Controle

Por Charles Eisenstein[i], março de 2016

Tradução Felippe Barretto

Revisão Lívia Nunes

 

As instituições governantes deste mundo estão bem confortáveis com um vírus.

Primeiro com o SARS, depois H1N1, em seguida Ebola e agora com o vírus Zika, a grande mídia e as organizações oficiais rapidamente reconheceram e combateram a ameaça com alertas de viagem, quarentenas, verbas para pesquisas, desenvolvimento de vacinas e aumento nos níveis de vigilância. No entanto, outras ameaças tão letais quanto essa (tais como resíduos da indústria farmacêutica na água potável, contaminação por pesticidas e envenenamento por metais pesados contidos na poluição do ar e da água) são geralmente ignoradas, relegadas à mídia alternativa ou ativamente ocultadas pelas autoridades públicas de saúde. Por quê?

A resposta imediata que vem à mente é de natureza econômica. As ameaças produzidas pelo Homem e listadas acima são subprodutos de atividades lucrativas desempenhadas por corporações que exercem imensa influência política. Se fôssemos tratar a contaminação tóxica de nossa biosfera de forma abrangente, todo nosso sistema econômico, industrial, médico e agrícola teria que mudar.

Numa leitura mais aprofundada, um vírus ou outro patógeno se encaixa perfeitamente no modelo de resposta às crises de nossa cultura. Primeiro, identifique um inimigo – alguma causa única para a crise – e em seguida declare guerra a este inimigo usando todas as tecnologias de controle disponíveis. No caso de um patógeno, o controle assume a forma de antibióticos, vacinas, agentes antivirais, drenagem de áreas pantanosas ou aplicação de inseticidas sobre essas áreas e quarentenas de indivíduos infectados; recomendamos até mesmo usar máscaras, evitar sair de casa ou adiar planos de viagens. No caso de terrorismo, o controle assume a forma de vigilância, bombardeios, uso de drones, fechamento de fronteiras etc. Em quaisquer crises que enfrentemos, pessoais ou coletivas, nossa tendência pseudoinstintiva é acionar esse padrão de reação.

Outro ponto de vista seria afirmar que, em casos de uma doença infecciosa, nossa sociedade sabe o que fazer (ou pensa que sabe o que fazer). As soluções que se apresentam são confortavelmente familiares. Basta continuar a fazer o que já vínhamos fazendo. Basta que ampliemos o alcance de nossa sociedade de controle um pouquinho mais para dominar o que até então não estava sob controle. Dessa forma, os instrumentos de contenção ou controle de uma doença coincidentemente favorecem interesses de controle social em geral. Em nome de tais instrumentos, sistemas de controle são justificados, desenvolvidos e exercidos, e podem ser utilizados para outros propósitos.

A situação atual com o vírus Zika, que está sendo culpado por uma terrível epidemia de microcefalia no Brasil, exemplifica a corrida para identificação de um patógeno. Testes detectaram a presença do vírus no sangue e líquido amniótico em aproximadamente 10% dos casos de fetos microcéfalos no Brasil. No entanto, o Zika também está presente na Colômbia e na Venezuela, onde não foram reportados surtos de microcefalia.

Há algumas semanas o enredo complicou-se quando um grupo de médicos argentinos alegou que o surto está mais relacionado com o larvicida destinado, ironicamente, a combater os mosquitos que são culpados pela disseminação do Zika. O larvicida denominado pyriproxyfen foi adicionado aos reservatórios de água potável em áreas nas quais os casos de microcefalia se disseminaram.

Para os Governos e grandes corporações é muito mais conveniente, em termos políticos, culpar um agente externo pela doença do que assumir a responsabilidade. Também é ideologicamente mais conveniente sob a perspectiva da narrativa da humanidade dominando a natureza. Ao invés de culpar a atividade humana, podemos marchar contra mais uma ameaça do mundo natural que precisa ser superada com soluções tecnológicas. Isso é algo familiar para nossa cultura. Nossas instituições sabem fazê-lo: exercita suas habilidades e justifica suas existências.

Sejamos cautelosos, no entanto, antes de identificar o pyriproxyfen como “a causa” da microcefalia. Precipitar-se na atribuição de culpa a um pesticida não difere essencialmente de culpar um vírus. Seguiríamos a mesma ideologia de controle e a mentalidade de buscar derrotar um inimigo. Mesmo porque alguns casos de microcefalia ocorreram em regiões nas quais não havia pesticida na água; além disso, o pyriproxyfen é amplamente usado no mundo. Trata-se de uma tese frágil e circunstancial na busca de um culpado.

Na frase anterior (“…um culpado.”) eu inseri uma premissa que compõe a raiz do problema. Estou assumindo que há “um” culpado, uma causa única. Quer seja um vírus ou um componente sintético, ambos nos dão algo contra o qual lutar e algo a controlar. O caminho para a vitória é claro, seja na luta contra um vírus, um Governo ou uma empresa química.

A ideologia do controle depende do reducionismo, idealmente a redução do problema a uma única causa. Problemas multifatoriais e não-lineares desafiam as estratégias reducionistas. Portanto, ainda que devamos, sem dúvida, banir o uso do pyriproxyfen na água potável imediatamente – mesmo que a epidemia de microcefalia se amenize, isso não significa que podemos tocar a vida como de costume e continuar pensando em termos lineares de causa e efeito. E se as deformidades estiverem sendo causadas pela combinação entre Zika e pyriproxyfen? A molécula poderia não ser a causa direta e sim um intensificador de uma terceira substância no organismo? Ela poderia causar uma ruptura no ecossistema aquático de uma forma desconhecida por nós, que eleva outro fator de risco ambiental igualmente desconhecido? Simplesmente não podemos afirmar.

Precisamos de perguntas do tipo, “Quais são as rupturas que ocorrem em ecossistemas quando matamos larvas presentes na água (potável ou não)?”; “Quais os efeitos cumulativos e sinérgicos de milhares de elementos químicos sintéticos na biosfera e em nossos corpos?”; “Como tomar decisões sobre segurança quando os meios comuns de testar tal segurança são por meio do controle de todas as variáveis exceto a que está sendo testada?” Note que o paradigma do controle se estende até a fórmula essencial de produção do conhecimento científico: isolar uma variável e testar seus efeitos.

Enquanto não começarmos a pensar em termos holísticos, pularemos de inimigo em inimigo, tratando sintomas e piorando a doença. As perguntas acima não têm respostas fáceis, mas um passo inicial benéfico seria deslocar-se do paradigma de domínio do inimigo e de controle do Outro para o domínio de si mesmo; encarar tudo que fazemos a partir desse novo olhar: os drones, as prisões, o estado de segurança, a máquina de guerra, os antibióticos, pesticidas, a engenharia genética, a medicação psiquiátrica, a exploração pela dívida… A dominação permeia toda a nossa civilização, inclusive a dominação de partes renegadas de nós mesmos. Isso já não está funcionando tão bem quanto antes.

[i] http://charleseisenstein.net/zika-and-the-mentality-of-control/

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