O mundo que nossos netos herdarão

Por Noam Chomsky

Trecho da entrevista a David Barsamian, na Jacobin de 13/02/2015.

Tradução original Pedro Lucas Dulci revisada por Felippe Barretto

Entrevistado pelo jornalista David Barsamian, o professor Noam Chomsky explica as raízes do Estado Islâmico (ISIS) e o porquê dos EUA e seus aliados serem responsáveis pela ascensão grupo. Chomsky argumenta especificamente que a invasão do Iraque em 2003 provocou um divisão sectária que desestabilizou a sociedade iraquiana. O resultado foi a criação de um solo fértil para desenvolvimento de extremistas financiados pelos sauditas.

O Oriente Médio está em chamas, da Líbia até o Iraque. Existem novos grupos jihadistas. O foco atual é o ISIS. O que dizer sobre ISIS e as suas origens?

Há alguns dias apareceu uma entrevista interessante com Graham Fuller, um ex-agente da CIA e um dos principais analistas de inteligência da grande mídia sobre o Oriente Médio. O título é “Os Estados Unidos criaram o ISIS”. Esta é uma das milhares de teorias da conspiração sobre o Oriente Médio.

No entanto, a fonte é diferente – vem do núcleo do establishment norteamericano. Fuller apressa-se em esclarecer que não afirma que os Estados Unidos decidiram criar o ISIS e o financiaram. Seu ponto – a meu ver, preciso – é que os Estados Unidos criaram as condições para o surgimento e desenvolvimento do ISIS. Grande parte disso pode ser atribuída à tradicional abordagem devastadora: destrua o que não te agrada.

Em 2003 os EUA e a Grã-Bretanha invadiram o Iraque, um crime grave. Há pouco o parlamento britânico autorizou um novo bombardeio. A invasão foi devastadora. O Iraque já havia sido virtualmente destruído, primeiro pela década de guerra contra o Irã — na qual, aliás, Bagdá foi apoiada por Washington — e depois pela década de sanções econômicas e políticas.

Tais sanções foram descritas como “genocidas” pelos dois respeitados diplomatas internacionais que as administravam, motivo pelo qual renunciaram em protesto. Elas devastaram a sociedade civil, fortaleceram o ditador e obrigaram a população a confiar nele para a sobrevivência. Essa é provavelmente a razão pela qual (Saddam Hussein) não seguiu o caminho natural de todos os outros ditadores que foram derrubados.

Por fim, os EUA simplesmente decidiram atacar o país em 2003. O ataque é comparado por muitos iraquianos à invasão mongol de mil anos atrás. Muito destrutiva. Centenas de milhares de pessoas mortas, milhões de refugiados, milhões de pessoas desalojadas, destruição da riqueza arqueológica do país da época suméria.

Um dos efeitos imediatos da invasão foi instituir divisões sectárias. Parte do brilhantismo da força de invasão e de seu diretor civil, Paul Bremer, foi separar os grupos — sunitas, xiitas e curdos — e instigá-los uns contra os outros. Após alguns anos estava instalado um conflito sectário brutal deflagrado pela invasão.

Você pode enxergar isso se olhar para Bagdá. Um mapa de Bagdá de, digamos, 2002, revela uma cidade mista: sunitas e xiitas vivem nos mesmos bairros e casam-se entre si. Na verdade, às vezes nem sabiam quem era sunita e quem era xiita. É como saber se seus amigos estão em um ou outro grupo protestante. Existiam diferenças, mas não eram hostis.

Na verdade, durante alguns anos ambos os lados diziam: nunca haverá conflitos entre sunitas e xiitas, estamos muito misturados na natureza de nossas vidas, nos locais onde vivemos e assim por diante. Em 2006 a guerra já era brutal. Esse conflito se espalhou para toda a região. Hoje a região está sendo dilacerada por conflitos entre sunitas e xiitas.

A dinâmica natural de um conflito como esse é que os elementos mais extremos comecem a assumir o controle. Eles tinham raízes. As raízes originam-se no mais importante aliado dos EUA, a Arábia Saudita, que tem sido o principal aliado dos EUA na região desde que os EUA se envolveram seriamente por lá, na verdade desde a fundação do Estado Saudita. É uma espécie de ditadura da família. O motivo é sua enorme quantidade de petróleo.

Os EUA tipicamente preferiam o islamismo radical ao nacionalismo secular, tal qual os britânicos antes deles. Quando os EUA passaram a ser hegemônicos adotaram a mesma postura. O islamismo radical tem seu centro na Arábia Saudita. É o estado islâmico mais extremista e mais radical no mundo. Faz o Irã parecer um país tolerante e moderno em comparação — e os países árabes seculares do Oriente Médio ainda mais, é claro.

A Arábia Saudita não é apenas dirigida por uma versão extremista do Islã, os salafistas wahhabistas. É também um Estado missionário. Usa seus enormes recursos petrolíferos para promover suas doutrinas em toda a região. Estabelece escolas, mesquitas, clérigos, em todo o lugar, do Paquistão até o Norte de África.

Uma versão extremista do extremismo saudita foi assumida pelo ISIS. Este grupo cresceu ideologicamente, portanto, a partir da forma mais extremista do Islã — a versão da Arábia Saudita — e dos conflitos engendrados pela invasão norte-americana, que destruíram o Iraque e se espalharam por toda a região. Este é o argumento de Fuller.

A Arábia Saudita não apenas fornece o núcleo ideológico que levou ao extremismo radical do ISIS mas também o financia. Não é o governo de Riad que o faz — e sim os sauditas e kuaitianos ricos. O ataque lançado à região pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha é a fonte de onde tudo se origina. Isso é o que significa dizer os EUA criaram o ISIS.

Pode ter bastante certeza de que, à medida que esses conflitos se desenvolvem, eles se tornarão mais extremistas. Os grupos mais brutais tenderão a assumir o controle. É o que acontece quando a violência se torna o meio de interação. É quase automático: em favelas ou nos assuntos internacionais. A dinâmica é perfeitamente evidente. É daí que vem o ISIS. E se for destruído talvez algo ainda mais extremo surgirá.

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