SETL : Estudo de caso sobre DLT

(Do original Distributed Ledger Technology: beyond blockchain, p.60-61)

 

Serviços de compensação, liquidação, custódia e registro representam custos adicionais para a emissão, negociação e manutenção de propriedade de títulos e valores mobiliários (VMs). Inúmeros agentes especializados e diversas contrapartes são envolvidos na movimentação de caixa e de ativos entre investidores. Além das taxas cobradas por esses serviços há também custos adicionais decorrentes da necessidade de se lidar com uma miríade de sistemas diferentes, que precisam de adaptação em suas interfaces e de integração com os demais processos operacionais. A indústria financeira global paga algo entre 65 e 80 bilhões[1] de libras anuais por ano em despesas com pós-negociação.

A tecnologia blockchain oferece uma maneira de reduzir significativamente a complexidade e o custo dos serviços de pós-negociação, permitindo que os participantes operem com um registro contábil compartilhado, armazenado em diversos servidores (os nós da rede descentralizada.) A autoridade para executar operações é dada por criptografia de chave pública e privada[2].

As operações são adicionadas à base de dados em blocos, e cada bloco é revisado por um nó. Um novo bloco só é adicionado à base existente se houver consenso entre os nós de que o novo bloco só contém transações válidas. Além de cuidar do estabelecimento e da manutenção dos nós, a rede de validadores deve ser completamente autônoma, e não requer uma entidade controladora e reguladora.

A solução SETL

O empreendimento privado denominado SETL pretende desenvolver e distribuir um blockchain especializado que permitirá aos participantes do mercado financeiro liquidar operações com títulos e VMs diretamente entre si, em uma base P2P (peer-to-peer). Manterá, também, um registro contábil descentralizado com os saldos de ativos e de caixa. O SETL pretende disponibilizar reservas bancárias via blockchain. O blockchain da SETL existirá em bases autônomas e se integrará à infraestrutura atual dos mercados financeiros, aos sistemas de pagamentos e aos mercados organizados.

O SETL será capaz de processar ambos os lados da transação, ou seja, ativos e caixa. Permitirá também a transferência unilateral de ativos e de caixa, quer na forma de pagamentos comuns ou com objetivo de liquidar contratos customizados, eventos corporativos, distribuição de dividendos ou pagamento de juros periódicos.

Em substituição ao atual processo de compensação e liquidação, que é caro e arriscado, o SETL será estruturado para processar a liquidação entre as partes, em tempo real. Além disso, ao criar um registro contábil único de propriedade, o SETL reduzirá significativamente as despesas com registro e custódia de títulos e valores mobiliários.

O blockchain da SETL terá as seguintes características:

  • As chaves públicas utilizadas no blockchain precisarão ser validadas por uma autoridade certificadora, evidenciando a todos os usuários do blockchain quem foi o responsável pela certificação de cada chave. As autoridades certificadoras manterão uma base de dados com a identificação civil dos usuários das chaves públicas, e realizarão checagens de prevenção à lavagem de dinheiro e rotinas de KYC (conheça seu cliente.) A SETL antecipa que as autoridades certificadoras poderão fornecer essas informações aos reguladores mediante solicitação legítima;
  • Capacidade de processar milhares de transações por segundo, em linha com os volumes que costumam ser transacionados nos mercados financeiros;
  • Habilidade para lidar com diversas classes de ativos, inclusive caixa;
  • Possibilidade de processar transações que exijam múltiplas assinaturas, nos casos em que as autorizações tenham que ser concedidas por um grupo específico de usuários;
  • Viabilidade de processar “transações atômicas”, isto é, ou todas as transações ocorrem ou nenhuma ocorre, de modo que nessa modalidade as operações só serão processadas caso todos os comandos estiverem presentes e tiverem sido devidamente autenticados;
  • Presença de uma funcionalidade modelada para facilitar a gestão da liquidez entre os participantes; e
  • Manutenção de um histórico completo de transações e saldos para simplificar a guarda de registros para fins regulatórios, para prestação de informações sobre negócios realizados e para trabalhos de auditoria.

 

Benefícios adicionais

Saldos de caixa e de outros ativos tendem a ser mantidos em sistemas específicos e só podem ser utilizados para propósitos específicos (são “system specific”.) Quando mantidos em um blockchain, tais saldos de caixa e de ativos estão disponíveis para serem usados para qualquer finalidade. Esta característica permitirá aos bancos reduzir o montante de recursos que precisam depositar em reservas de liquidez, além de simplificar a gestão da liquidez.

O SETL pretende oferecer uma solução capaz de rodar junto com o RTGS (England Real Time Gross Settlement – processo de liquidação por valor bruto em tempo real do Banco da Inglaterra), oferecendo uma alternativa segura e viável caso o RTGS esteja indisponível. A disponibilidade do SETL é ininterrupta, reduzindo o acúmulo de risco interbancário que ocorre atualmente quando o RTGS não está rodando (e.g. em finais de semana ou durante a noite.)

O sistema de liquidação e pagamento SETL será simples, unificado e imediato. Se o Reino Unido for o primeiro a lançar um sistema como esse, os serviços financeiros elegerão a Libra como moeda preferencial e Londres como o local mais favorável para negócios. É provável que, uma vez estabelecido em Londres, o sistema passe a ser amplamente adotado, consolidando ainda mais a posição de liderança de Londres nas finanças internacionais.

__________________________________

[1] R$325 a R$400 bilhões, ao câmbio de 16 de maio de 2016.

[2] Ou criptografia assimétrica.

Advertisements
SETL : Estudo de caso sobre DLT

DLTs na pós-negociação: revolução ou evolução?

(Artigo original publicado por Andrea Pinna e Wiebe Ruttenberg em Abril de 2016 em Occasional Papers Series do Banco Central Europeu.)

 

Sumário Executivo

Ao longo da última década a Tecnologia da Informação (TI) transformou a maneira pela qual as pessoas interagem. No entanto, o mercado financeiro não experimentou transformação semelhante visto que os intermediários e infraestruturas de mercado envolvidos na liquidação de operações seguem utilizando bases de dados proprietárias que não se comunicam entre si.

As Tecnologias de Livro-Razão Descentralizado[1] (Distributed Ledger Technologies – DLTs) são um tipo de tecnologia surgida no contexto das moedas virtuais que permite o compartilhamento de uma base de dados entre os usuários. A adoção das DLTs poderia, em tese, tornar os processos de pós-negociação mais eficientes e impactar sobremaneira os intermediários financeiros que prestam serviços de pós-negociação.

Este artigo analisa as principais funcionalidades das DLTs que podem influenciar sua adoção por instituições financeiras, e discute como o uso dessas tecnologias pode afetar o mercado de pós-negociação de valores mobiliários na Europa.

O arranjo atual deste mercado é, em grande medida, uma decorrência das infraestruturas originais dos mercados nacionais que, em um cenário anterior à criação da União Monetária e Econômica, eram os responsáveis por desenvolver regras para a realização de negócios e por estabelecer padrões técnicos, em um contexto no qual a integração entre mercados nacionais era relativamente pouco importante.

Nos anos recentes houve poucas mudanças na forma como diferentes instâncias do mercado interagem, tais como custodiantes, correspondentes bancários[2], agentes de compensação e liquidação, collateral managers, centrais depositárias e centrais de registro de ativos. A falta de interoperabilidade entre bancos de dados proprietários contribui para a estanqueidade dos registros digitais de propriedade, prejudicando a fluidez do processamento. O uso de tais registros também pode gerar riscos operacionais, contribuindo para que o ambiente de negócios continue heterogêneo. Impede, ainda, o uso eficiente de garantias e limita o potencial de dispersão de riscos entre investidores europeus, devido ao aumento de custos decorrentes de operações transnacionais.

A adoção da DLT possibilitaria o compartilhamento da representação digital da titularidade de ativos entre instituições financeiras concorrentes, e permitiria rastrear a execução, a compensação e a liquidação de operações mesmo para quem não tiver acesso aos bancos de dados proprietários. Tampouco seria necessário haver envolvimento de um sistema central de gestão de banco de dados.

De acordo com seus criadores, as DLTs têm potencial para solucionar diversas das falhas identificadas nas atividades de pós-negociação tal como são realizadas atualmente. No entanto, essas tecnologias ainda estão em estágio inicial de desenvolvimento, de modo que ainda é cedo para afirmar qual tipo de DLT prevalecerá, se será amplamente adotada nos mercados de títulos e valores mobiliários e se será capaz de mitigar as ineficiências do mercado.

Este artigo avalia alguns dos aspectos dos modelos de DLTs que podem influenciar sua possível adoção por participantes do mercado financeiro no futuro, e discute os impactos que as DLTs podem provocar na pós-negociação.

A “contabilidade distribuída” (distributed ledger, DL) pode, por exemplo, ser acessível a qualquer usuário ou restrita a um grupo de participantes pré-autorizados. Seu conteúdo pode ser público e disponibilizado a todos, ou pode ser privado e, portanto, acessível apenas a membros selecionados dos participantes da rede. Desenvolvedores das DLTs estão inclusive investigando a possibilidade de disponibilizar a informação somente para o titular autorizado da conta e para um ou mais supervisores.

Alguns aspectos que serão cruciais para determinar se as DLTs poderiam ser adotadas em ambientes institucionais, tais como mercados de ações e de títulos, são as restrições sobre as pessoas autorizadas a acessar e atualizar um registro contábil, a validar mudanças nos registros e a ler as informações contidas em um registro.

O protocolo original das DLTs provém do ambiente anárquico das moedas virtuais, que operam fora do sistema financeiro convencional. A relevância das DLTs vai além do Bitcoin e seu modelo aberto de blockchain. Outros tipos de DLT são mais adequados às necessidades das instituições financeiras, tais como tecnologias restritas ou contratos inteligentes, e podem contribuir para o desenvolvimento de processos de pós-negociação mais seguros, confiáveis e eficientes.

O debate corrente sobre as DLTs centra-se na tecnologia em si e no potencial de ruptura que sua implementação poderia trazer para o mercado atual de pós-negociação e seus participantes. É preciso manter em mente que, independente da tecnologia selecionada, algumas funções inerentes ao mercado de pós-negociação para valores mobiliários sempre precisarão ser realizadas por instituições. Isso limita o potencial de ruptura da introdução de DLTs, ainda mais pelo fato de que algumas funções da pós-negociação terem seu desempenho intensamente regulados, tal como a atividade notarial.  A atividade de compensação continuará sendo necessária para negócios que envolvam derivativos. Já a atividade de custodiante pode se extinguir caso os contratos inteligentes passem a ser amplamente adotados.

A adoção das DLTs pode ocorrer de diversas formas, a depender de decisões estratégicas tomadas pelos participantes do mercado e pelas instituições públicas em seus papéis de normatizadores, reguladores e catalisadores. A indústria financeira é uma indústria estruturada como uma rede. Atualmente, diversas barreiras legais e operacionais dificultam o processamento de operações. A adoção de DLTs só auxiliará a lidar com as fragilidades identificadas na pós-negociação se houver padronização técnica adequada das tecnologias adotadas, se todos os participantes estiverem sujeitos às mesmas regras de conduta e se implementarem boas práticas de governança.

Caso não se alcance uma adoção ampla das DLTs, ainda assim as tecnologias proprietárias podem resultar em um pós-negociação mais eficiente, mesmo que restritos a setores isolados das instituições financeiras.

Uma questão que carece de encaminhamento refere-se à compatibilização da movimentação financeira de uma operação em conjunto com a movimentação dos ativos negociados. Tal desafio ainda não recebeu atenção suficiente dos participantes de mercado nem das iniciativas de DLTs. Ainda que seja impossível especular, por ora, se as reservas bancárias poderão vir a ser movimentadas através de contabilidade distribuída, há que se encontrar formas para lidar com o sistema em vigor de entrega mediante pagamento (Delivery Versus Payment, DVP), ou seja, com a necessidade de se atualizar as contas de reservas como contrapartida imediata de transferências de ativos. Sob o ponto de vista da supervisão prudencial e da estabilidade do sistema financeiro, a liquidação de operações sem transferência imediata de reservas tem limitações pois envolve o risco de crédito das instituições bancárias.

Além desses aspectos, necessita-se de esclarecimentos sobre a natureza jurídica da contabilidade distribuída, sobre a exigibilidade de contratos inteligentes e sobre a validade legal do método de autenticação de usuários de DLTs.

Conclui-se que a DLT tem potencial e que as inovações são benvindas no mercado Europeu de pós-negociação sempre que puderem trazer segurança e eficiência. No entanto, diversos fatores podem se configurar como barreiras à ampla utilização das DLTs: 1) a tecnologia ainda não está madura; 2) os esclarecimentos sobre questões fundamentais levarão tempo para se assentar (aspectos legais, operacionais e de governança); e 3) não está claro se as DLTs provocarão mudanças profundas nos mercados financeiros tradicionais ou se o uso de tais tecnologias se restringirá a nichos.

É possível que as DLTs sejam adotadas no mercado financeiro como um todo. Caso ocorra, é mais provável que causem mudanças graduais em processos, e não uma revolução no mercado.

__________________________________

[1] Traduções possíveis que têm registros recentes: “Tecnologia de Livro-registro Descentralizado”, “Tecnologia de Ledger Descentralizado”. Acredito na opção “Tecnologia de Contabilização Descentralizada.”

[2] Cash correspondents no original em inglês, talvez a tradução não seja exata.

DLTs na pós-negociação: revolução ou evolução?

Zika e a Mentalidade do Controle

Por Charles Eisenstein[i], março de 2016

Tradução Felippe Barretto

Revisão Lívia Nunes

 

As instituições governantes deste mundo estão bem confortáveis com um vírus.

Primeiro com o SARS, depois H1N1, em seguida Ebola e agora com o vírus Zika, a grande mídia e as organizações oficiais rapidamente reconheceram e combateram a ameaça com alertas de viagem, quarentenas, verbas para pesquisas, desenvolvimento de vacinas e aumento nos níveis de vigilância. No entanto, outras ameaças tão letais quanto essa (tais como resíduos da indústria farmacêutica na água potável, contaminação por pesticidas e envenenamento por metais pesados contidos na poluição do ar e da água) são geralmente ignoradas, relegadas à mídia alternativa ou ativamente ocultadas pelas autoridades públicas de saúde. Por quê?

A resposta imediata que vem à mente é de natureza econômica. As ameaças produzidas pelo Homem e listadas acima são subprodutos de atividades lucrativas desempenhadas por corporações que exercem imensa influência política. Se fôssemos tratar a contaminação tóxica de nossa biosfera de forma abrangente, todo nosso sistema econômico, industrial, médico e agrícola teria que mudar.

Numa leitura mais aprofundada, um vírus ou outro patógeno se encaixa perfeitamente no modelo de resposta às crises de nossa cultura. Primeiro, identifique um inimigo – alguma causa única para a crise – e em seguida declare guerra a este inimigo usando todas as tecnologias de controle disponíveis. No caso de um patógeno, o controle assume a forma de antibióticos, vacinas, agentes antivirais, drenagem de áreas pantanosas ou aplicação de inseticidas sobre essas áreas e quarentenas de indivíduos infectados; recomendamos até mesmo usar máscaras, evitar sair de casa ou adiar planos de viagens. No caso de terrorismo, o controle assume a forma de vigilância, bombardeios, uso de drones, fechamento de fronteiras etc. Em quaisquer crises que enfrentemos, pessoais ou coletivas, nossa tendência pseudoinstintiva é acionar esse padrão de reação.

Outro ponto de vista seria afirmar que, em casos de uma doença infecciosa, nossa sociedade sabe o que fazer (ou pensa que sabe o que fazer). As soluções que se apresentam são confortavelmente familiares. Basta continuar a fazer o que já vínhamos fazendo. Basta que ampliemos o alcance de nossa sociedade de controle um pouquinho mais para dominar o que até então não estava sob controle. Dessa forma, os instrumentos de contenção ou controle de uma doença coincidentemente favorecem interesses de controle social em geral. Em nome de tais instrumentos, sistemas de controle são justificados, desenvolvidos e exercidos, e podem ser utilizados para outros propósitos.

A situação atual com o vírus Zika, que está sendo culpado por uma terrível epidemia de microcefalia no Brasil, exemplifica a corrida para identificação de um patógeno. Testes detectaram a presença do vírus no sangue e líquido amniótico em aproximadamente 10% dos casos de fetos microcéfalos no Brasil. No entanto, o Zika também está presente na Colômbia e na Venezuela, onde não foram reportados surtos de microcefalia.

Há algumas semanas o enredo complicou-se quando um grupo de médicos argentinos alegou que o surto está mais relacionado com o larvicida destinado, ironicamente, a combater os mosquitos que são culpados pela disseminação do Zika. O larvicida denominado pyriproxyfen foi adicionado aos reservatórios de água potável em áreas nas quais os casos de microcefalia se disseminaram.

Para os Governos e grandes corporações é muito mais conveniente, em termos políticos, culpar um agente externo pela doença do que assumir a responsabilidade. Também é ideologicamente mais conveniente sob a perspectiva da narrativa da humanidade dominando a natureza. Ao invés de culpar a atividade humana, podemos marchar contra mais uma ameaça do mundo natural que precisa ser superada com soluções tecnológicas. Isso é algo familiar para nossa cultura. Nossas instituições sabem fazê-lo: exercita suas habilidades e justifica suas existências.

Sejamos cautelosos, no entanto, antes de identificar o pyriproxyfen como “a causa” da microcefalia. Precipitar-se na atribuição de culpa a um pesticida não difere essencialmente de culpar um vírus. Seguiríamos a mesma ideologia de controle e a mentalidade de buscar derrotar um inimigo. Mesmo porque alguns casos de microcefalia ocorreram em regiões nas quais não havia pesticida na água; além disso, o pyriproxyfen é amplamente usado no mundo. Trata-se de uma tese frágil e circunstancial na busca de um culpado.

Na frase anterior (“…um culpado.”) eu inseri uma premissa que compõe a raiz do problema. Estou assumindo que há “um” culpado, uma causa única. Quer seja um vírus ou um componente sintético, ambos nos dão algo contra o qual lutar e algo a controlar. O caminho para a vitória é claro, seja na luta contra um vírus, um Governo ou uma empresa química.

A ideologia do controle depende do reducionismo, idealmente a redução do problema a uma única causa. Problemas multifatoriais e não-lineares desafiam as estratégias reducionistas. Portanto, ainda que devamos, sem dúvida, banir o uso do pyriproxyfen na água potável imediatamente – mesmo que a epidemia de microcefalia se amenize, isso não significa que podemos tocar a vida como de costume e continuar pensando em termos lineares de causa e efeito. E se as deformidades estiverem sendo causadas pela combinação entre Zika e pyriproxyfen? A molécula poderia não ser a causa direta e sim um intensificador de uma terceira substância no organismo? Ela poderia causar uma ruptura no ecossistema aquático de uma forma desconhecida por nós, que eleva outro fator de risco ambiental igualmente desconhecido? Simplesmente não podemos afirmar.

Precisamos de perguntas do tipo, “Quais são as rupturas que ocorrem em ecossistemas quando matamos larvas presentes na água (potável ou não)?”; “Quais os efeitos cumulativos e sinérgicos de milhares de elementos químicos sintéticos na biosfera e em nossos corpos?”; “Como tomar decisões sobre segurança quando os meios comuns de testar tal segurança são por meio do controle de todas as variáveis exceto a que está sendo testada?” Note que o paradigma do controle se estende até a fórmula essencial de produção do conhecimento científico: isolar uma variável e testar seus efeitos.

Enquanto não começarmos a pensar em termos holísticos, pularemos de inimigo em inimigo, tratando sintomas e piorando a doença. As perguntas acima não têm respostas fáceis, mas um passo inicial benéfico seria deslocar-se do paradigma de domínio do inimigo e de controle do Outro para o domínio de si mesmo; encarar tudo que fazemos a partir desse novo olhar: os drones, as prisões, o estado de segurança, a máquina de guerra, os antibióticos, pesticidas, a engenharia genética, a medicação psiquiátrica, a exploração pela dívida… A dominação permeia toda a nossa civilização, inclusive a dominação de partes renegadas de nós mesmos. Isso já não está funcionando tão bem quanto antes.

[i] http://charleseisenstein.net/zika-and-the-mentality-of-control/

Zika e a Mentalidade do Controle

Zika e Microcefalia – flagrante falta de evidências

Por Jon Rappoport, publicado em 4/fevereiro/2016 em https://jonrappoport.wordpress.com/category/zika/

Tradução: Felippe Barretto

 

Agora posso apresentar a mais recente atualização sobre o que os pesquisadores brasileiros estão descobrindo conforme eles se debruçam sobre suas conclusões iniciais sobre o vírus Zika e os casos de microcefalia (bebês nascidos com cabeças pequenas e mau funcionamento cerebral.)

Um correspondente me enviou a tradução da matéria que saiu em 2 de fevereiro em um dos principais jornais de São Paulo, O Estado de São Paulo: “País tem 404 casos confirmados de microcefalia.”

É óbvio que não foi encontrada nenhuma conexão significativa entre a microcefalia e o vírus Zika. Nem de longe. Por enquanto não há absolutamente nenhuma razão para alardear uma epidemia de Zika. Soar o alarme a esta altura é muita loucura, sob qualquer ponto de vista minimamente razoável.

Seguem abaixo os principais fatos citados no artigo (a serem comentados na sequência):

– Em 30 de janeiro de 2015, 4.783 casos de suspeita de microcefalia foram relatados no Brasil;

– Dentre esses 4.783 casos, 3.670 casos de suspeita de microcefalia estão sendo investigados, considerando o país inteiro;

– Dentre esses 3.670 casos, 404 casos foram confirmados como casos de microcefalia ou de “outras alterações no sistema nervoso central” dos bebês;

– Dentre os 404 casos, 17 “tinham uma relação com o vírus Zika”; e

– 98% dos 404 casos de microcefalia são originários do Nordeste do Brasil, e Pernambuco apresenta o maior número de casos: 56.

 

Pois bem. Vamos então analisar cada um dos fatos relatados.

 

Primeiro: 4.783 casos de suspeita de microcefalia no Brasil. “Suspeita” é a palavra central. Este número não significa nada, pois não diz nada sobre confirmação. É apenas um número aproximado.

3.670 casos estão sendo analisados.

Destes 3.670 casos, 404 casos foram confirmados como casos de microcefalia ou de outras alterações no sistema nervoso central dos bebês. A palavra central aqui é “ou”. Os pesquisadores não sabem quantos dos 404 bebês têm microcefalia. No máximo seriam 404.

404 casos de microcefalia no Brasil inteiro, até agora. Isto não é uma epidemia. Por exemplo, todos os anos há 25.000 casos de microcefalia nos Estados Unidos. A literatura especializada é muito clara sobre as causas: qualquer dano ao cérebro do feto durante a gestação pode causar a microcefalia. Desnutrição severa, queda de uma escada, um golpe na barriga, uma droga comprada nas ruas, um remédio, um pesticida etc..

Dentre os 404 (possíveis) casos de microcefalia, detectou-se apenas 17 casos em que “há alguma relação com o vírus Zika.” É difícil ser mais vago que isso. Mas, para todos os efeitos, vamos considerar que em cada um desses 17 casos os testes foram realizados corretamente e o vírus Zika foi isolado. Esta descoberta não é prova nem remota de que o Zika está causando microcefalia. Está a kilômetros de distância de provar a causalidade. Qualquer pesquisador honesto te dirá a mesma coisa. Se o Zika fosse a causa, os pesquisadores teriam sido capazes de encontrar o vírus em quase todos os 404 bebês. 17 em 404 é uma prova de que o Zika não é a causa da microcefalia.

98% dos casos de microcefalia foram observados na região Nordeste do Brasil. Antes de concluir qualquer coisa, note que os padrões utilizados para relatar casos desse tipo variam entre as regiões. Até agora não houve foco nacional na microcefalia. Portanto, pode haver casos em outras regiões. Quanto aos 56 casos em Pernambuco, saiba que a população do estado é de 9,27 milhões de pessoas. É relevante notar que a agricultura comercial é amplamente praticada em Pernambuco, e isso significa uso intensivo de pesticidas tóxicos – um fator causal importante da microcefalia, conforme relatei em outros artigos.

Para resumir, os pesquisadores encontraram 404 casos de microcefalia no Brasil, e ninguém sabe ao certo quantos desses casos são algum outro tipo de mau funcionamento do sistema nervoso. Dentre os 404 bebês, foi detectada a presença do vírus Zika em, no máximo, 17 casos.

Esta é a epidemia que está abalando o mundo.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) está liderando a histeria e a propaganda. Centenas de funcionários da OMS deveriam ser, no mínimo, demitidos, senão presos.

_____________________________________________________

N. do T.: Se te interessar refletir mais sobre quem se beneficia com esse pânico generalizado e precipitado, recomendo assistir a esta conversa com o autor. (23 min. de duração, em inglês)

Zika e Microcefalia – flagrante falta de evidências

O mundo que nossos netos herdarão

Por Noam Chomsky

Trecho da entrevista a David Barsamian, na Jacobin de 13/02/2015.

Tradução original Pedro Lucas Dulci revisada por Felippe Barretto

Entrevistado pelo jornalista David Barsamian, o professor Noam Chomsky explica as raízes do Estado Islâmico (ISIS) e o porquê dos EUA e seus aliados serem responsáveis pela ascensão grupo. Chomsky argumenta especificamente que a invasão do Iraque em 2003 provocou um divisão sectária que desestabilizou a sociedade iraquiana. O resultado foi a criação de um solo fértil para desenvolvimento de extremistas financiados pelos sauditas.

O Oriente Médio está em chamas, da Líbia até o Iraque. Existem novos grupos jihadistas. O foco atual é o ISIS. O que dizer sobre ISIS e as suas origens?

Há alguns dias apareceu uma entrevista interessante com Graham Fuller, um ex-agente da CIA e um dos principais analistas de inteligência da grande mídia sobre o Oriente Médio. O título é “Os Estados Unidos criaram o ISIS”. Esta é uma das milhares de teorias da conspiração sobre o Oriente Médio.

No entanto, a fonte é diferente – vem do núcleo do establishment norteamericano. Fuller apressa-se em esclarecer que não afirma que os Estados Unidos decidiram criar o ISIS e o financiaram. Seu ponto – a meu ver, preciso – é que os Estados Unidos criaram as condições para o surgimento e desenvolvimento do ISIS. Grande parte disso pode ser atribuída à tradicional abordagem devastadora: destrua o que não te agrada.

Em 2003 os EUA e a Grã-Bretanha invadiram o Iraque, um crime grave. Há pouco o parlamento britânico autorizou um novo bombardeio. A invasão foi devastadora. O Iraque já havia sido virtualmente destruído, primeiro pela década de guerra contra o Irã — na qual, aliás, Bagdá foi apoiada por Washington — e depois pela década de sanções econômicas e políticas.

Tais sanções foram descritas como “genocidas” pelos dois respeitados diplomatas internacionais que as administravam, motivo pelo qual renunciaram em protesto. Elas devastaram a sociedade civil, fortaleceram o ditador e obrigaram a população a confiar nele para a sobrevivência. Essa é provavelmente a razão pela qual (Saddam Hussein) não seguiu o caminho natural de todos os outros ditadores que foram derrubados.

Por fim, os EUA simplesmente decidiram atacar o país em 2003. O ataque é comparado por muitos iraquianos à invasão mongol de mil anos atrás. Muito destrutiva. Centenas de milhares de pessoas mortas, milhões de refugiados, milhões de pessoas desalojadas, destruição da riqueza arqueológica do país da época suméria.

Um dos efeitos imediatos da invasão foi instituir divisões sectárias. Parte do brilhantismo da força de invasão e de seu diretor civil, Paul Bremer, foi separar os grupos — sunitas, xiitas e curdos — e instigá-los uns contra os outros. Após alguns anos estava instalado um conflito sectário brutal deflagrado pela invasão.

Você pode enxergar isso se olhar para Bagdá. Um mapa de Bagdá de, digamos, 2002, revela uma cidade mista: sunitas e xiitas vivem nos mesmos bairros e casam-se entre si. Na verdade, às vezes nem sabiam quem era sunita e quem era xiita. É como saber se seus amigos estão em um ou outro grupo protestante. Existiam diferenças, mas não eram hostis.

Na verdade, durante alguns anos ambos os lados diziam: nunca haverá conflitos entre sunitas e xiitas, estamos muito misturados na natureza de nossas vidas, nos locais onde vivemos e assim por diante. Em 2006 a guerra já era brutal. Esse conflito se espalhou para toda a região. Hoje a região está sendo dilacerada por conflitos entre sunitas e xiitas.

A dinâmica natural de um conflito como esse é que os elementos mais extremos comecem a assumir o controle. Eles tinham raízes. As raízes originam-se no mais importante aliado dos EUA, a Arábia Saudita, que tem sido o principal aliado dos EUA na região desde que os EUA se envolveram seriamente por lá, na verdade desde a fundação do Estado Saudita. É uma espécie de ditadura da família. O motivo é sua enorme quantidade de petróleo.

Os EUA tipicamente preferiam o islamismo radical ao nacionalismo secular, tal qual os britânicos antes deles. Quando os EUA passaram a ser hegemônicos adotaram a mesma postura. O islamismo radical tem seu centro na Arábia Saudita. É o estado islâmico mais extremista e mais radical no mundo. Faz o Irã parecer um país tolerante e moderno em comparação — e os países árabes seculares do Oriente Médio ainda mais, é claro.

A Arábia Saudita não é apenas dirigida por uma versão extremista do Islã, os salafistas wahhabistas. É também um Estado missionário. Usa seus enormes recursos petrolíferos para promover suas doutrinas em toda a região. Estabelece escolas, mesquitas, clérigos, em todo o lugar, do Paquistão até o Norte de África.

Uma versão extremista do extremismo saudita foi assumida pelo ISIS. Este grupo cresceu ideologicamente, portanto, a partir da forma mais extremista do Islã — a versão da Arábia Saudita — e dos conflitos engendrados pela invasão norte-americana, que destruíram o Iraque e se espalharam por toda a região. Este é o argumento de Fuller.

A Arábia Saudita não apenas fornece o núcleo ideológico que levou ao extremismo radical do ISIS mas também o financia. Não é o governo de Riad que o faz — e sim os sauditas e kuaitianos ricos. O ataque lançado à região pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha é a fonte de onde tudo se origina. Isso é o que significa dizer os EUA criaram o ISIS.

Pode ter bastante certeza de que, à medida que esses conflitos se desenvolvem, eles se tornarão mais extremistas. Os grupos mais brutais tenderão a assumir o controle. É o que acontece quando a violência se torna o meio de interação. É quase automático: em favelas ou nos assuntos internacionais. A dinâmica é perfeitamente evidente. É daí que vem o ISIS. E se for destruído talvez algo ainda mais extremo surgirá.

O mundo que nossos netos herdarão

Como os Governos aterrorizam a população

 

Por James Corbett (em http://www.TheInternationalForecaster.com)

21 de Novembro de 2015

O meme já foi lançado: “Paris muda tudo,” de acordo com os terroristas nos Governos que se beneficiam das mudanças trazidas pelos ataques terroristas em Paris.

É mesmo? Paris realmente “mudou tudo?”

Bom, vamos nos recordar dos dias felizes terminados em 12 de Novembro de 2015. Como o mundo anterior aos ataques de Sexta-feira 13 de Novembro se compara ao mundo de hoje?

Antes dos ataques, a União Europeia podia criticar a França por não atingir suas metas orçamentárias. Após os ataques, a EU pode tentar criticá-la mas a França pode afastar tais preocupações invocando a cláusula de segurança da UE.

Antes dos ataques, os franceses podiam se opor a um projeto legislativo que conferiria amplos poderes de vigilância aos serviços de inteligência. Após os ataques, o governo tem amplo apoio da população para conceder poderes especiais emergenciais à polícia e para emendar a Constituição fazendo com que tais poderes sejam permanentes.

Antes dos ataques, o povo inglês podia protestar contra a proposta de lei de vigilância Orwelliana de seu governo. Após os ataques, o primeiro ministro David Cameron pode propor tramitação acelerada do projeto para “proteger a população” dos terroristas.

Antes dos ataques, o governo Britânico podia propor um corte drástico de 1,9 bilhão de Libras ao orçamento da Polícia. Após os ataques, tais cortes provavelmente serão drasticamente reduzidos.

Antes dos ataques, o principal bloco político no Parlamento Europeu poderia tentar propor a criação de um Exército Europeu mas ninguém o levaria a sério. Após os ataques, o presidente da Comissão Europeia coloca-se a favor de um Exército Europeu e todos o levam a sério.

(…)

Dá para entender o recado. O ponto é simples e é fácil de compreender: espetáculos de violência podem fazer com que o politicamente impensável torne-se politicamente desejado.

Deixe-me salientar a definição preferida da ONU para “terrorismo”:

“Atos criminosos planejados ou praticados por motivos políticos com a intenção de provocar um estado de terror na população, em um grupo de pessoas ou em indivíduos.”

No caso dos eventos como os ataques a Paris, certamente temos uma situação em que a população foi levada a um estado de terror. Mas a quais propósitos políticos esse terror serve? Aos do Estado Islâmico, que serão bombardeados e exterminados da face do planeta junto com o Assad? Ou aos políticos que pressionam por maiores orçamentos, aumento nos poderes de vigilância, acessos privilegiados a dados criptografados, novos exércitos regionais etc.? Se a resposta é que o terror serve aos políticos, isso não os torna os terroristas, por definição?

Esta observação não é nova em nenhum sentido. Já foi constatada há décadas, senão séculos. H.L. Mencken observou em 1918 que:

“O principal objetivo prático da política é manter a população alarmada (e implorando para ser conduzida à segurança), ameaçando-a com uma série interminável de bichos-papões, a maior parte deles imaginários”

Winston Churchill supostamente disse: “nunca desperdice uma boa crise”. Verdade ou mito, Rahm Emanuel (antigo Chefe de Gabinete do Obama e atual prefeito de Chicago) soltou essa frase e temos o registro em vídeo.

(…)

A estratégia é incrivelmente simples. Provoque um ataque, simule um ataque, permita que um ataque aconteça ou simplesmente capitalize sobre um ataque ocorrido. Use a revolta do povo para aprovar novas leis draconianas, fazendo papel de salvador da pátria. Assista ao povo se unir em torno da bandeira e implorar para lhe conceder ainda mais poder para que você os mantenha seguros.

Esse fenômeno não é novo. Esse fenômeno não é surpreendente. Não é imprevisível. Na verdade, tenho falado extensamente sobre esse fenômeno no Corbett Report e milhares de outras pessoas têm falado sobre isso há muito mais tempo. Mesmo assim o tema precisa ser retomado agora, enquanto o público ainda está arrebatado pela histeria provocada pelo terror. Incidentes terroristas espetaculares são a varinha de condão dos mágicos controladores da sociedade: eles distraem o público enquanto a ação real ocorre em outra parte.

Como lidamos com isso? Quebramos a varinha na cara do público. Mostramos o pássaro escondido na manga. Revelamos o irmão gêmeo do assistente de palco que se esconde no número de mágica. Expomos a xícara com fundo falso. Revelamos o truque e acabamos com o feitiço lançado sobre o público.

De uma forma ou de outra, os terroristas são aqueles que buscam aumentar seu próprio poder enquanto o país agoniza em luto e ira. De uma forma ou de outra, são os Governos que estão aterrorizando suas populações.

(…)

 

Como os Governos aterrorizam a população